Breves comentários sobre filmes da 48ª Mostra de Cinema de SP

Pequenas Coisas Como Estas

O conceito do filme é melhor do que sua forma final. Assim como o protagonista interpretado pelo Cillian Murphy, Mielants é silencioso e contemplativo (quase chato rs) na sua abordagem, construindo o drama a partir de flashbacks pontuais e a tensão (que poderia ter mais) na descoberta acerca da cumplicidade de todos aos horrores da Igreja Católica na Irlanda. Falta um pouco de impacto.

Avaliação: 3 de 5.

Nota: 3/5

Familiar Touch

Como bem descrevem algumas sinopses por aí, é um coming of age da melhor idade. Simples, divertido, triste e bonito, tudo isso ao mesmo tempo como deve ser, sem exagerar em nada. Kathleen Chalfant encanta.

Avaliação: 3.5 de 5.

Nota: 3,5/5

Super Feliz Para Sempre

(dir: Igarashi Kohei)

Não esperava que a verdadeira estrela do filme fosse um boné vermelho rs. Cenas de pessoas se apaixonando são sempre belas, mas a relação com mais carisma é a amizade entre as duas mulheres. A vida é sobre perder e encontrar coisas.

Avaliação: 3 de 5.

Nota: 3/5

Ainda Estou Aqui

(dir: Walter Salles)

Grande filme. Salles constrói uma primeira metade quase impecável ao dar uma atenção especial a seus personagens e na maneira que os membros da família protagonista se relacionam e se influenciam. Fernanda Torres em performance absurda; ela É o filme.

Na segunda metade, o melodrama perde um pouco da força ao ir para um lado mais universal da temática do filme (não é à toa que está com tanta força para o Oscar). Isso não funciona tanto pra mim, mas pelo menos a abordagem sóbria de Salles não deixa o longa ceder tanto aos clichês.

A cena da Fernanda Montenegro é fraca, quase desnecessária se pensarmos naquele final com as fotos. É quase uma espécie de chantagem emocional com a memória afetiva em torno da atriz. Ainda assim, GRANDE FILME.

Avaliação: 4 de 5.

Nota: 4/5

Onda Nova

(dir: José Antônio Garcia, Ícaro Martins)

Bela restauração do filme de 83, exibido na 7ª Mostra antes de ser censurado pela ditadura. Ele parte da transgressão da prática do futebol feminino à época para tratar de libertação sexual, desejo e de uma juventude que era dona de si. Muito divertido.

Avaliação: 3.5 de 5.

Nota: 3,5/5

Balomania

(dir: Sissel Dargis Morell)

Uma enérgica viagem no submundo dos baloeiros no Brasil, daquelas que inflamam e inspiram. Sempre bom ver pessoas obcecadas por algo muito específico. É sobre sonhos, mas também sobre fazer arte num Brasil que odeia seus artistas, principalmente os periféricos, sem esconder os riscos da prática. Doidera.

Avaliação: 4 de 5.

Nota: 4/5

2035

(dir: Park Jae-in)

Uma premissa super interessante (reunificação da Coreia), mas com uma narrativa e abordagem extremamente chatas. Além disso, ao meu ver não transita muito bem entre o horror e a comédia. De bom, o filme pelo menos se trata de uma produção tipo B, mais livre, meio marginal, diferente dos filmes do país que costumam vir pra cá.

Avaliação: 2 de 5.

Nota: 2/5

Conduzindo Seus Pássaros

(dir: Takeru Ozaki)

Queria fazer igual Seita e ir pro meio do mato às vezes para recuperar a inspiração, superar os bloqueios criativos. Um filme bem vibes para quem gosta daquele vídeo do YouTube com a garotinha estudando enquanto toca um lo-fi. Um filme para quem busca paz de espírito.

Antes da exibição, o diretor leu uma carta muito fofa em português, agradecendo aqueles que compareceram à sessão.

Avaliação: 4 de 5.

Nota: 4/5

Marco, a Verdade Inventada

(dir: Jon Garaño, Aitor Arregi)

Divertidíssima adaptação da vida de Enric Marco, um espanhol que enganou seu país ao afirmar que era sobrevivente de campos de concentração nazistas. Você torce para ele ser desmascarado e se contorce de vergonha conforme isso acontece.

Avaliação: 3.5 de 5.

Nota: 3,5/5

Dahomey

(dir: Mati Diop)

Ao fim da sessão, fica impossível esquecer das vozes dos fantasmas do colonialismo e do desaparecimento inseridas ao longo do filme. Um documentário com mais perguntas do que respostas. Interessantíssimo.

Avaliação: 3.5 de 5.

Nota: 3,5/5

É Apenas um Adeus

(dir: Guillaume Brac)

O fato de ser um documentário torna o filme mais interessante na mesma medida que deixa seus personagens ainda mais desinteressantes.

Avaliação: 2.5 de 5.

Nota: 2,5/5

Guerra da Porcelana

(dir: Brendan Bellomo, Slava Leontyev)

Fiquei encucado que, nas cenas de conflito, o filme se aproxima de um blockbuster de ação, com montagem rápida e música épica. É assim que uma guerra deveria ser retratada? Me concentrei, então, naquilo que me interessa: o foco do projeto nos artistas ucranianos que não deixam de fazer arte mesmo durante o conflito. Guerra é realmente uma parada bizarra.

Avaliação: 3 de 5.

Nota: 3/5

O Senhor dos Mortos

(dir: David Cronenberg)

Um filme sobre luto e seus fantasmas, mas muito divertido, engraçado e ácido. Sobre paranoia, conspiração e espionagem, mas não tão interessado nisso pq no final das contas não passam de mera paranoia e conspiração mesmo. Sobre voyeurismo e sexo, mas frio em tom e visual. Sobre morte, mas também sobre ESTAR VIVO. Brabo.

Avaliação: 4 de 5.

Nota: 4/5

Levados Pelas Marés

(dir: Jia Zhangke)

Uma série de imagens de arquivo e cenas não utilizadas de trabalhos anteriores, quase como se Jia Zhangke estivesse tendo um flashback e decidisse transformar isso num filme-memória, um exercício sobre as pessoas, os lugares e suas histórias e como tudo isso se conecta. Talvez foi um pouco demais pro meu cérebro cansado de um dia exaustivo, mas é bonito.

Avaliação: 3.5 de 5.

Nota: 3,5/5

Virgínia e Adelaide

(dir: Yasmin Thayná, Jorge Furtado)

Tem muito de Jorge Furtado e seu tom educativo, meio Telecurso 2000, meio teatro, sobre as duas figuras históricas que protagonizam o filme às vezes fica no meio do caminho entre fazer um ponto e contar uma história. Senti falta da força visual característico dos trabalhos de Yasmin Thayná. Então, vale mais por Sophie Charlotte e Gabriela Correa, comprometidas com o projeto.

Avaliação: 3 de 5.

Nota: 3/5

Totto-Chan: A Menina na Janela

(dir: Shinnosuke Yakuwa)

Começa como o filme mais bonitinho e feliz do mundo, termina sendo o mais triste de todos os tempos. É interessante como constrói o contexto da 2ª Guerra na primeira metade, como se aquela escola vivesse em um ambiente à parte do conflito assim como faz as crianças rejeitadas esquecerem as limitações que a sociedade japonesa lhes impõe, um lugar onde criança pode ser apenas criança e a protagonista consegue explorar sua energia incontrolável. E assim, mesmo falando desse trauma japonês da bomba atômica, de morte e dores, Totto-Chan é um filme muito vivo. Adorei!

Avaliação: 3.5 de 5.

Nota: 3,5/5

Não Chore, Borboleta

(dir: Linh Duong)

É um filme que vai inserindo elementos fantásticos de uma forma bem orgânica com todo o resto, assim como se mistura bem aos TikToks que são jogados na tela. Te deixa sem respostas de um jeito interessante. Estranho de um jeito bom.

Avaliação: 3 de 5.

Nota: 3/5

Baby

(dir: Marcelo Caetano)

Uma cidade de São Paulo muito mais viva do que aquilo que se pensa sobre ela. Marcelo Caetano utiliza cores, dança e muito sexo, sem esquecer que essas coisas não são nada, se você não se enxerga naqueles que te acompanham. Baby e Ronaldo se veem um no outro e essa conexão se dá não apenas através das dores da comunidade LGBTQIAP+, que costumam ser o foco em alguns dos projetos do tipo, mas na necessidade de encontrar uma forma de fugir delas. E, ao mesmo tempo que isso os une, por vezes os afasta. Nesta tensão, vemos um romance dos mais sinceros, complexos e belos do ano. Que trilha sonora. Que final maravilhoso. “Vê se não some”.

Avaliação: 4 de 5.

Nota: 4/5

O Palhaço de Cara Limpa

(dir: Camilo Cavalcante)

Um retrato da classe artística durante os anos do golpe contra Dilma Rouseff e o caos político brasileiro. Interessante, especialmente nas conversas do artista com a mãe e seus amigos artistas. Um pouco cansativo às vezes e o resumo do governo Bolsonaro + pandemia em forma de pesadelo adiciona pouco ao tema por vir tão tarde no filme. Bela sequência ao som de “Nuvem Passageira”.

Avaliação: 3 de 5.

Nota: 3/5

Sol de Inverno

(dir: Hiroshi Okuyama)

Com certeza o mais fofo que assisti na Mostra. Um filme de esporte que rejeita a competitividade, fugindo desse padrão agressivo da masculinidade assim como Takuya, personagem principal, faz ao escolher a patinação no gelo sobre o hóquei. Fotografia linda, que usa e abusa da luz para capturar a performance das crianças como se fosse um sonho de verão em época de inverno.

Avaliação: 4 de 5.

Nota: 4/5

Kummatty

(dir: Govindan Aravindan)

Um drama fantasioso com bases folclóricas que registra a natureza como poucos filmes o fazem. Espero conseguir rever um dia, pois sinto que vou gostar ainda mais.

Avaliação: 3.5 de 5.

Nota: 3,5/5

Crickets, It’s Your Turn

(dir: Olga Korotko)

A moça entrou no pior rolê hétero top possível, era óbvio que ia dar ruim. É praticamente uma versão longa-metragem da parte final de Promising Young Woman.

Avaliação: 1.5 de 5.

Nota: 1,5/5

The Great Phuket

(dir: Yaonan Liu)

Um coming of age como tantos outros, mas carregado de muita vontade nesse seu retrato de uma China em reconstrução e sobre como esse processo sócio-econômico do país literalmente engole uma parcela da sociedade. Um trio de jovens protagonistas formado por bons atores. Muitas vezes lembrei de Djonga cantando “Todo errado, todo! Te quero bem, mas sou todo errado, todo!” pelo protagonista ser um adolescente meio babaca, mas com muito carinho e amor dentro de si.

Avaliação: 3.5 de 5.

Nota: 3,5/5

Alegoria Urbana

(dir: Alice Rohrwacher, JR)

Mito da Caverna de Platão contemporâneo de uma maneira bem previsível e com execução razoável. Tá ok.

Avaliação: 2.5 de 5.

Nota: 2,5/5

Não Sou Eu

(dir: Leos Carax)

Doideras de Leos Carax em seu autorretrato filmado, se aproximando de Godard ao refletir sobre suas obras, o cinema e o mundo. Bebê Annette!

Avaliação: 3.5 de 5.

Nota: 3,5/5

Maria Callas

(dir: Pablo Larraín)

Dessa leva de filmes com grandes mulheres da história de Pablo Larraín, acho que este não tem a mesma força de Spencer (não vi Jackie), mas o diretor consegue ir além da figura histórica mais uma vez. É como se ele pegasse velhas fotografias dessas figuras marcantes e as transformasse em algo vivo, no melhor sentido, com alma, dores, defeitos e virtudes. Dá pra sentir o carinho dele pela figura de La Callas.

Avaliação: 3.5 de 5.

Nota: 3,5/5

Amizade

(dir: Cao Guimarães)

Acho que não é muito pra mim essa linha Petra Costa de documentários, recheados de memórias filmadas e pensamentos em voice-over num tom meio filosófico. Aqui, ele é melhor quando é mais pessoal na primeira metade do que quando parte para o retrato do covid-19.

Avaliação: 2 de 5.

Nota: 2/5

Anora

(dir: Sean Baker)

Não esperava que fosse uma comédia maluca com muito humor físico, mas o mais interessante é como Sean Baker consegue capturar seus personagens com um certo tipo de compaixão mesmo nos momentos mais engraçados e terríveis de cada um e nos limites dos estereótipos que representam. Faz você entender a todos e, principalmente, aos sonhos de Anora, interpretada por uma Mikey Madison cativante. A plateia que riu o filme todo, deixou a sala em silêncio com aquele final.

Avaliação: 4.5 de 5.

Nota: 4,5/5

A Grande Cidade

(dir: Satyajit Ray)

Que filme absurdo é este clássico de Satyajit Ray. Te absorve pra dentro da tela, como se você virasse um membro daquela família indiana que é chocada quando a esposa decide entrar para o mercado de trabalho. Moderno e bonito. Direto ao ponto. A cidade grande, seus trânsitos e confusões, enquanto um reflexo da bagunça psicológica e moral dos personagens.

Avaliação: 5 de 5.

Nota: 5/5

Através do Fluxo

(dir: Hong Sang-soo)

Existe uma representação visual, feita por Amanda Ghasseai, de um fenômeno conhecido como “desprendimento de vórtices”, que é basicamente quando um objeto (uma pedra, por exemplo) interrompe o fluxo de ar ou água. Na representação, uma esfera interrompe uma série de linhas paralelas e forma redemoinhos. Tal representação foi utilizada como base para o artista Roy Beatty criar a capa de Currents, do Tame Impala, a fim de simbolizar a transformação pessoal e outros temas do disco. Acredito que a arte de Ghasseai também sirva para falar dos personagens de Através do Fluxo, um dos mais engraçados de Hong Sang-soo dos últimos tempos, visto que eles também vivem em um certo fluxo que é interrompido (e transformado) por encontros, conflitos e eventos. Não à toa, a cena final se dá em um riacho cheio de pedras. As pedras que transformam nosso caminho.

Avaliação: 4 de 5.

Nota: 4/5

Aqui as Crianças Não Brincam Juntas

(dir: Mohsen Makhmalbaf)

O depoimento do jornalista afro-palestino Ali Jeddah é o grande acerto de um filme ok, literalmente um dos documentários já feitos, com as melhores intenções possíveis.

Avaliação: 3 de 5.

Nota: 3/5

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