Alguns meses atrás, Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa (2021) estreou nos cinemas e encantou os fãs do herói criado por Stan Lee e Steve Ditko. Não necessariamente por ser um bom filme, mas por entregar justamente o que se esperava dele: participações especiais, nostalgia, acerto de contas e uma correção de rota para sua versão mais recente, interpretada por Tom Holland. É uma longa sessão de terapia (entre Marvel Studios e Sony Pictures) que busca colocar Peter Parker no caminho que, levando em conta teorias e expectativas de fãs na internet, seria o mais adequado para o personagem.
Este novo Batman parte de um mesmo princípio de correção de curso após as tentativas frustradas da Warner Bros em montar um universo compartilhado da DC Comics. Não é à toa a presença do artigo “The” no título original. A ideia aqui não é simplesmente fazer uma nova aventura do Homem-Morcego, mas reafirmar para o público, e principalmente para o fã, quem é “O” Batman e estabelecer uma forma cinematográfica definitiva de como o herói deve ser retratado nas telas.
Somos apresentados, então, a um jovem Bruce Wayne (Robert Pattinson), ainda em seu segundo ano como vigilante mascarado que combate os crimes da cidade de Gotham. “Sem armas”, diz ele em determinado momento ao incorruptível Gordon (Jeffrey Wright), quase como uma resposta à persona militarizada interpretada por Ben Affleck recentemente. Juntos, o vigilante e o policial investigam uma série de assassinatos cometidos pelo vilão Charada (Paul Dano), o que os leva de encontro a uma rede de corrupção envolvendo figuras públicas importantes e revelações que ameaçam a memória da família Wayne.
O diretor Matt Reeves, que também assina o roteiro ao lado de Peter Craig, assume uma abordagem estilizada que busca a conciliação de características marcantes do herói com novas referências. Então, ao mesmo tempo que mistura doses de realismo dos filmes de Christopher Nolan com elementos estilísticos que remetem a Zack Snyder, Reeves resgata a arquitetura gótica de Gotham (muito presente nos quadrinhos e na adaptação dirigida por Tim Burton) e a compatibiliza com elementos do cinema noir.
É nessa integração de referências com o universo do personagem que o filme se vincula também ao Coringa (2019) de Todd Phillips, pois cria igualmente um mundo que é sombrio e duro como a realidade, mas que não é realista de fato. Ambos, inclusive, chegam a beber do mesmo copo e têm em Taxi Driver (1976) uma de suas inspirações, especialmente na psique de seus respectivos protagonistas, mas Reeves se mostra um cineasta muito mais articulado do que Phillips neste processo e entrega uma mistura de gêneros mais homogênea dentro de uma receita pronta de filme de boneco.
O grande porém é que, assim como os dois capítulos da franquia Planeta dos Macacos dirigidos por Reeves, Batman sobra em termos técnicos e falta em emoção, pois se contenta em entregar apenas o que se espera dele. Aqui neste caso, isso significa uma trama detetivesca, sugestões de violência crua, uma porção de estilo e respeito ao cânone do personagem. Estaria o público, então, novamente se contentando apenas com o cumprimento de suas expectativas?

Bom, eu estaria sendo injusto se falasse que Batman se preocupa apenas em atender expectativas, já que possui uma qualidade artesanal digna de elogios. Reeves sempre foi um bom condutor de cenas e aqui seu trabalho é privilegiado pelo ótimo uso de lentes e profundidade de campo do diretor de fotografia Greig Fraser, além da trilha sonora inspirada do compositor Michael Giacchino. Mas, levando em conta todos os nomes envolvidos na produção, nada disso é surpreendente. Se você já teve contato com outros trabalhos de Robert Pattinson, Paul Dano, Zoë Kravitz e John Turturro, por exemplo, sabe que o elenco é plenamente capaz de entregar todas as nuances necessárias aos personagens e isso vale da mesma forma para toda a equipe criativa.
Talvez a característica mais singular do longa-metragem seja como Reeves filma tudo de forma intrusiva. Existe um constante interesse pelos segredos, pelo proibido, e tal operação reside na aura voyeur que a produção carrega, explorando o olhar através de planos em primeira-pessoa, e nas interações entre os personagens, como as constantes intromissões de Batman quando a Mulher-Gato está sozinha ou na invasividade de Carmine Falcone ao passar a mão no rosto de Selina Kyle. Não é por menos que a boate e a personagem de Zoë Kravitz sejam centrais à trama; o proibido conversa constantemente com o desejo sexual e, numa época em que as grandes produções de super-herói rejeitam o sexo, é animador que Batman se atente à sensualidade.
No entanto, em outros quesitos, o filme não se atreve a ter a mesma disposição. A obra até chega a tecer alguns comentários sobre classismo, privilégio branco e neofacismo, mas não se aprofunda verdadeiramente em nada disso. É como se até existisse a intenção de seguir por esta direção, mas quando se trata de um dos maiores nomes dos quadrinhos, os limites para o quão longe o filme pode ir nesse caminho estão sempre à vista. Afinal, a verdade é que, por mais que tente disfarçar por trás de todo seu primor técnico, Batman tem como grande prioridade as mesmas intenções da concorrência, isto é, agradar seus fãs alienados e gerar spin-offs e derivados. A própria trama de suspense à lá Se7en (1995) é escanteada em algum momento para dar conta do passado das famílias ricas, dos políticos e mafiosos, ou seja, da construção de universo. A aparição DAQUELE personagem nos minutos finais só traz para a luz esse interesse maior pelo futuro da franquia do que pelo agora.
Em meio a tanto potencial desperdiçado, então, Batman se torna em alguns momentos uma experiência blasé, satisfeita em ser apenas o que se espera dela. Em tempos de blockbusters sem inspiração, é possível entender o que leva muitas pessoas a ficarem impressionadas com este trabalho. É, sim, uma produção bem fotografada, com ideias interessantes e que alcança alguns momentos fortes, mas no final das contas é um filme que nunca deixa de ser… apenas um filme. E poderia ser um pouco mais, não poderia?
Nota: 3/5

