Se antes do Marvel Studios entrar no mundo das séries alguém perguntasse “Quem quer uma série do Gavião Arqueiro?”, é provável que poucas pessoas dessem uma resposta positiva. O herói interpretado por Jeremy Renner, ainda que seja um dos Vingadores originais do filme de 2012, sempre andou de mãos dadas com o desinteresse de parte do público. Afinal, como um arqueiro pode competir com um gênio bilionário que usa uma armadura de ferro, um supersoldado e um deus nórdico? A série do personagem, exclusiva do Disney+, parece concordar com esta impossibilidade e se assume como um contraponto às histórias de grande escala do estúdio.
A trama apresenta Clint Barton/Gavião Arqueiro em busca de um feliz Natal com sua família, mas ainda traumatizado pelos eventos de Vingadores: Guerra Infinita (2018) e Ultimato (2019). Ao descobrir que a jovem Kate Bishop (Hailee Steinfeld) encontrou o traje que ele utilizou durante o período de 5 anos que metade da população da Terra esteve desaparecida, Barton precisa lidar com o passado e lutar contra uma gangue de criminosos ao lado de uma adolescente empolgada por encontrar seu maior ídolo.
A química entre Renner e Steinfeld é instantânea, o que favorece a dinâmica da dupla nesta relação herói & fã e a constante transição da série entre humor e seriedade. O trio de diretores, Rhys Thomas e Bert & Bertie, é rápido em encontrar uma unidade formal, da abordagem simples e direta às cenas de ação até a identidade visual nitidamente inspirada na HQ de Matt Fraction e David Aja, que também serve de base para a história. Além disso, são cautelosos na utilização de flashbacks, aproveitando-os mais como reforço das angústias dos personagens do que como uma necessidade de se integrar ao universo Marvel. No geral, o grande trunfo aqui é abraçar uma escala menor e nunca se levar a sério demais, mas o problema é quando a produção parece considerar isto como um convite à mediocridade.

Se o papel da maioria dos integrantes da Gangue de Agasalho é ser tão ridículo quanto o nome sugere, a inserção de um grupo de RPG medieval comandado por Clayton English perde seu propósito e ocupa um tempo no qual outros núcleos seriam desenvolvidos com mais entusiasmo. Com exceção da dupla principal, quase todo o restante do elenco é subaproveitado, visto que as motivações de seus personagens eventualmente perdem relevância dentro da estrutura narrativa escolhida — é o caso da Eleanor Bishop de Vera Farmiga e da dupla Maya (Alaqua Cox) e Kazi (Fra Fee). Tony Dalton é um dos poucos que se destaca, aproveitando o ar exagerado de seu Jack Duquesne a favor do humor e do mistério.
Especialmente durante a segunda metade dos episódios, a série ainda cai na obrigatoriedade de construir o futuro do universo, algo constante em produções do Marvel Studios e que quase sempre age em detrimento de uma aventura mais coesa para seus personagens. Ao mesmo tempo que duas figuras aguardadas pelos fãs são introduzidas na trama, não existe outro fato empolgante que construa tensões para o episódio final. O fato da série não ter uma aventura tão memorável e ser previsível em cada uma de suas viradas a torna ainda mais frágil às intervenções de Kevin Feige.
Ao fim, resta uma experiência que nunca se torna necessariamente cansativa, mas tão pouco é marcante. Como de costume, o estúdio se preocupa mais com o futuro do que com o presente, estabelecendo laços entre personagens e os levando do ponto A ao ponto B da forma mais burocrática e desapaixonada possível. Enquanto os olhos de Kate Bishop brilham ao ver seu herói preferido, os do espectador nunca estiveram no arqueiro.
Nota: 2/5

