Crítica: Amor, Sublime Amor (2021)

Steven Spielberg é genial. Falar isto é quase redundante dada toda sua carreira e o impacto que suas principais obras têm em Hollywood. Dito isto, chega a ser curioso o fato do cineasta nunca ter dirigido um musical antes desta nova versão de Amor, Sublime Amor. O mais perto que ele chegou do gênero foi talvez na cena inicial de Indiana Jones e O Templo da Perdição (1984) e, ainda assim, sua direção quase sempre concedeu a seus filmes um ritmo dançante, uma espécie de balé muito bem orquestrado com blocking bem definido, travellings elegantes e resolução de cenas em planos-sequência quase invisíveis.

Em tempos de nostalgia, remakes e reboots, a escolha por Amor, Sublime Amor parece até lógica de um ponto de vista mercadológico: a obra é aclamada tanto pela versão da Broadway quanto pela adaptação cinematográfica dirigida por Robert Wise, sendo que esta última ainda pedia uma atualização pela forma como retratou personagens porto-riquenhos ao utilizar atores brancos com maquiagem escura e por comentários raciais questionáveis.

Spielberg parte, sim, da nostalgia para fazer sua versão do musical pelo qual, como declarou em diversas entrevistas, é apaixonado desde a infância. Isso é demonstrado logo na cena inicial que constantemente acena para o clássico de 1961. A partir de certo momento, porém, o diretor e sua equipe, encabeçada pelas parcerias com o coreógrafo Justin Peck e com o roteirista Tony Kushner, buscam recriar o romance à la Romeu & Julieta entre Tony (Ansel Elgort) e Maria (Rachel Zegler) sob uma nova ótica.

Não é como se Spielberg transformasse completamente a obra, é claro, mas há grande interesse em não replicar os números musicais mais ilustres do filme de Wise, além de uma reorganização na ordem em que as canções são apresentadas. Tais escolhas geram momentos interessantes, positivos e negativos. Se “Cool” ganha peso dramático ao ser transformada num duelo entre Riff (Mike Faist, excelente) e Tony, “I Feel Pretty”, por sua vez, tenta fazer o mesmo ao evocar as expectativas inocentes de Maria logo após o conflito dos grupos, mas o contraste neste caso soa mais inadequado do que inteligente.

“America” é um dos melhores momentos do filme, muito por causa de dois grandes destaques do elenco, Ariana DeBose e David Alvarez, e pelo trabalho do diretor de fotografia Janusz Kaminski. Se o cinema contemporâneo atua com cores mais amenas do que na versão da década de 60, a cinematografia dissolve a paleta da adaptação anterior com delicadeza. Visualmente, é um dos trabalhos mais bonitos de 2021. Quando a câmera enquadra um personagem sozinho sobre uma poça d’água logo no início do filme ou no momento que as sombras dos Sharks e dos Jets começam a engolir a tela na chegada das gangues ao grande embate, são situações que por si já justificam o exercício de revisitar esta história.

Já o processo de acerto de contas desta nova versão vai além do casting latino e da questão racial, passando também pela revisão de alguns fragmentos da trama para que se adequem aos dias atuais. A tentativa de estupro de Anita (DeBose), por exemplo, enfim recebe uma reprovação moral, enquanto a presença do ator transmasculino iris menas oferece novas possibilidades a um personagem pouco desenvolvido em outras versões da história. Até a protagonista Maria é atualizada na medida que a narrativa permite, evitando o papel de mulher submissa mesmo quando a personagem é podada pelo controle do irmão.

Dentro deste processo de adequações e nostalgia, então, os momentos nos quais Amor, Sublime Amor melhor funciona são aqueles em que consegue conciliar ambos em prol da tragédia que esse amor shakespeariano oferece. Apesar de Ansel Elgort (e todas as acusações que o envolvem tornam Tony um personagem ainda mais antiquado para nossos tempos), ao passo que o clímax se aproxima, torna-se quase impossível não se envolver por tudo aquilo. É um romance, uma história sobre gangues e crimes, sobre sonhos despedaçados e violência. É Steven Spielberg, que faz seu primeiro musical como tivesse feito apenas filmes do gênero ao longo da carreira.

Avaliação: 4 de 5.

Nota: 4/5