Existe um fascínio do ser humano por imagens de outros tempos. Creio que isso se intensifica quando você é descendente de imigrantes e passa a se relacionar com mais afinco às histórias de seus antepassados. Velhas fotografias, rodas de conversa com familiares e alguns filmes como, no meu caso (neto de japoneses que vieram ao Brasil), os dirigidos por Olga Futemma, Gaijin: Caminhos da Liberdade (1980), Corações Sujos (2011) e Batchan (2020) ganham mais relevância.
Há até um certo deslumbramento neste processo de autoconhecimento. De início, coloca-se um valor quase desproporcional nessas memórias, como se elas pudessem nos ajudar a definir quem somos no presente e reivindicar nosso lugar neste país — O que não deixa de ser uma verdade, mas quais ações devemos tomar a partir disso? Que pontes essas memórias podem construir?
Bom, no cinema, a câmera sempre foi esse instrumento de viagem no espaço-tempo; um combustível para o transporte da mente humana ao passado, às diferentes realidades e a possíveis futuros. Um dos elementos que mais me cativa em Liberdade (2018) é como os cineastas Vinicius Silva e Pedro Nishi buscam justamente na câmera e suas imagens uma forma de abraçar diversas memórias e linhas temporais a fim de vislumbrar, nem que seja por alguns instantes, um futuro para as dinâmicas imigratórias do bairro da Liberdade, em São Paulo.
Nas primeiras cenas do filme, a câmera apresenta em planos fixos seus protagonistas e olhares distantes. Sow (Mamadou Yaya Sow) observa os aviões partindo do aeroporto. Satsuke (Cristina Sano), quase sempre uma presença fantasmagórica, mira o bairro que dá título ao curta-metragem. E Abou (Aboubacar Sidibé) é o primeiro de vários personagens captados em posição frontal ao espectador. São olhares que lembram, que imaginam, que encaram. No caso, encara-se a complexidade histórica do local, que passou pelo período escravocrata no qual negros eram mortos na forca localizada na atual Praça da Liberdade, depois se transformou em um bairro comum para famílias de origem japonesa, e agora lida com uma forte presença de novos imigrantes africanos e latino-americanos.
Lembram-se as dores — “Bem-vindo, mas não é bem-vindo” — e a câmera também atua na materialização delas. O isolamento e a invisibilização de quem chega de outro país passam pela subexposição com a qual se captura os corpos, especialmente os negros, e pelos enquadramentos, que por serem estáticos se assemelham a fotografias em movimento, numa reflexão sobre a falta de registros fotográficos de famílias negras.
É através de registros fotográficos, inclusive, que se lembram das famílias. Em determinada sequência, os retratos dos ancestrais de Satsuke se intercalam pela montagem com fotografias da família de Abou. É a primeira ponte entre dois tempos que o filme estabelece, conectando duas experiências completamente diferentes, mas que ocuparam o mesmo lugar por motivos específicos de cada época.
Neste momento em que a ponte temporal se configura, se inicia também uma quebra dos limites entre gêneros. Ficção se mistura com o documentário que se embola com a voice-over de Abou, que dita um texto quase em formato de ensaio e envolve o espectador no redemoinho de reflexões. Mas uma hora ele cessa. Os fantasmas somem, o som dos instrumentos de Abou param e ficam as contas a pagar — as de um passado negro sobreposto pelas camadas do tempo e a de luz do centro de acolhimento.
Os problemas da atualidade batem na porta e, novamente, como as memórias podem ajudar nisso? Que pontes elas podem construir? E, no meu caso, qual o papel do asiático-brasileiro na luta da população negra e dos novos imigrantes? O filme progride através do olhar dos novos moradores do bairro da Liberdade, mas a representação de Satsuke como fantasma sempre chamou minha atenção neste ponto. Trata da necessidade de encararmos as contradições de nossos antepassados e seus encontros (nem sempre pacíficos) com a população negra; são os espectros que ecoam pelo tempo e parecem nos cercar até hoje. É quase um elemento fantástico dentro da árdua realidade que o curta retrata. É a imaginação daqueles olhares distantes, que buscam maneiras de tornar um espaço cheio de heranças e assombrações em um centro de reparação de dores coletivas.
Nota: 4.5/5
Texto escrito como parte do Curso de Crítica Cinematográfica realizado pelo Itaú Cultural em 2021.

