Na nova fase do MCU, o Marvel Studios colocou seus personagens na terapia. Em WandaVision temos a protagonista criando um universo próprio, descolado da realidade, para poder lidar com seus sentimentos, enquanto em Falcão e o Soldado Invernal os heróis passam por uma sessão de terapia de casal. Logo, era de se esperar que Loki colocaria o personagem interpretado por Tom Hiddleston frente a frente consigo mesmo (literalmente!) e que, no fim, como diria Aquele Que Permanece (Jonathan Majors), o que importaria seria sua jornada — e, principalmente, se ela seria satisfatória ou não.
É claro que toda jornada tem um quê terapêutico, ainda mais se tratando de super-heróis, que sempre precisam lidar com a perda de alguém ou algo muito importante: o pai, a mãe, o tio, o planeta da onde veio, o cachorro de estimação. No caso de Loki, ao pegar o Tesseract em Vingadores: Ultimato (2019) e ser capturado pela TVA, ele perde sua realidade e, com ela, a possibilidade de viver a trajetória de redenção que acompanhamos nos cinemas. Mas, veja bem, se o estúdio está promovendo um soft reboot de seu universo para introduzir os X-Men e o Quarteto Fantástico, nada mais adequado do que pegar o seu primeiro grande vilão — e uma variante feminina do próprio (Sophia Di Martino) — e, numa nova jornada de desconstrução, transformá-lo no Adão (e na Eva) do Multiverso Marvel.
O interessante, novamente, é como a diretora Kate Herron e o roteirista Michael Waldron organizam o caminho dessas variantes até o destino principal. Uma vez que Loki é uma figura historicamente reconhecida como uma ideia fixa, ou seja, um Deus trapaceiro incapaz de mudança ou evolução, a partir do momento que ele reconhece isto e questiona seu papel dentro da narrativa, a série não poderia assumir uma forma que não fosse a metalinguagem. Se anteriormente comentei que um dos problemas recorrentes do universo Marvel é o tratamento que o estúdio dá a suas histórias, fazendo com que elas pareçam muito mais uma organização de peças num tabuleiro do que um jogo de xadrez em si, aqui Loki e cia se reconhecem como peças desse tabuleiro. A partir daí, Herron e Waldron desenvolvem os temas da série e revelam suas principais inspirações.

Se a TVA é uma instituição burocrática que se assemelha às grandes corporações das distopias que estão no nosso imaginário, é natural que seu visual nos lembre Brazil: O Filme (1985), Blade Runner (1982) e Metropolis (1927) e o papel de tomar a decisão mais drástica às engrenagens do MCU caia nas mãos de quem assumiu a guerra contra essa máquina do sistema — no caso, Sylvie. Se a viagem no tempo promove momentos de non-sense e reviravoltas na narrativa, é muito fácil pensar em Rick and Morty e De Volta para o Futuro (1985). A bela trilha sonora de Natalie Holt também aponta para o sci-fi, mas com tons de fantasia que lembram algumas das melhores composições de Murray Gold para Doctor Who.
Por mais que pareça uma mera junção de ideias já conhecidas, Herron e Waldron adicionam esses elementos na narrativa com muito equilíbrio e fazem de Loki uma obra bem consistente para com seus personagens. Em alguns momentos, os realizadores até abusam dos longos diálogos — afinal, é tudo uma grande sessão de terapia — sobre eventos nexus, guerras multiversais e tecno-baboseiras, mas nisto também promovem um jogo de mentiras e desconfianças que sempre revela muito mais do que é dito. Logo, as referências e inspirações servem mais para reforçar a ideia cíclica do universo dos quadrinhos e da cultura pop, que constantemente reutilizam os mesmos conceitos com uma nova roupagem.
É defendendo o poder narrativo dessas grandes histórias e convenções, inclusive, que Loki sai da mesmice das estruturas do Marvel Studios, não inovando necessariamente, mas tendo convicção na estrutura que montou para o protagonista se assumir um vilão, se transformar em um herói e terminar com o coração partido. Além de preparar o futuro do universo, a série não esquece de seus personagens (um dos poucos casos do estúdio que consegue fazer isto) e dá verdadeira importância ao que nos faz acompanhar todo tipo de história: a jornada. E ela foi, sim, satisfatória.
Nota: 4/5

