O primeiro sinal da perda do timing do Marvel Studios em relação ao lançamento de Viúva Negra se dá logo no período em que a trama é ambientada. Não podendo explorar a personagem depois de Vingadores: Ultimato (2019) por motivos óbvios, a aventura se passa logo após os eventos de Capitão América: Guerra Civil (2016). Fugindo de General Ross (William Hurt) devido à sua rebelião contra o Tratado de Sokovia, Natasha Romanoff/Viúva Negra (Scarlett Johansson) reencontra sua irmã Yelena (Florence Pugh), que lhe pede ajuda para libertar outras mulheres da Sala Vermelha, iniciativa russa de controle mental de agentes espiãs.
O roteiro de Eric Pearson, portanto, já tem que lidar com o desafio do público conhecer o destino da heroína e ainda precisa responder os mistérios que foram plantados ao longo da franquia em relação ao passado da personagem. Poderia virar um tediante jogo de respostas prontas, mas Pearson lida bem com isso durante a maior parte do tempo e apresenta uma família disfuncional e divertida no processo.
Yelena, Melina (Rachel Weisz) e Alexei (David Harbour) formaram, ao lado de Natasha, uma família de espiões que viveu secretamente nos EUA durante a infância da protagonista. Os três “parentes” formam uma estrutura de oposição à conhecida frieza da personagem principal, com Yelena sendo o melhor contraponto entre os três, porque Florence Pugh incorpora muito bem a teimosia, impulsividade e as doses de sarcasmo de seu papel. Weisz e Harbour, por outro lado, têm participações mais modestas, mas a dinâmica de figuras paternas funciona com ambos.

A diretora Cate Shortland faz suas melhores escolhas justamente nessa relação familiar. Há, nos momentos de reencontro de Natasha com seus iguais, uma sensibilidade que fortalece a jornada de cada um em busca de humanidade, de reparar seus erros e superar experiências traumáticas. Principalmente durante sua primeira metade, o filme concilia de forma bem natural este choque entre presente X passado da protagonista com as revelações dos mistérios que a cercam. As cenas de ação também se mostram interessantes durante esse trecho, pois recebem uma abordagem mais direta e crua.
Conforme se aproxima do clímax, porém, o longa-metragem passa a fazer concessões mais claras aos padrões do estúdio. A ação retoma as dinâmicas de Capitão América: Soldado Invernal (2014) e ganha uma escala mais grandiosa, cheia de explosões e efeitos especiais. É obviamente divertido, mas é também uma máscara para a desistência da produção em tentar construir uma personalidade própria. A Sala Vermelha, por exemplo, é um espaço que seria melhor explorado pela câmera ou teria uma arquitetura mais estilizada em outras obras mais comprometidas com a ação ou com o subgênero de espionagem.
As respostas, que antes apareciam naturalmente, passam a ser desnecessária e exclusivamente a serviço do “universo coeso”, vide a origem do colete que a Viúva Negra utilizou nos últimos Vingadores. O que melhor funciona nesse último ato é o embate da heroína com seu antagonista principal, pois a analogia do abuso ganha um discurso mais claro, embora esta questão talvez não seja explorada com a devida atenção.
Ao fim, enquanto produto isolado, Viúva Negra é extremamente divertido, conta com cenas de ação inspiradas e apresenta bons personagens para o futuro do MCU. O desfecho até tenta deixar uma sensação de dever cumprido em relação à figura de Scarlett Johansson, mas a verdade é que o filme parece deslocado no tempo e perde pontos por chegar atrasado.
Nota: 3/5

