Crítica: Rua do Medo: 1994 — Parte 1 (2021)

Em uma Hollywood nostálgica e viciada em remakes, reboots e sequências, um desafio constante de quem precisa ressuscitar uma franquia é atualizá-la para um novo público sem descaracterizar completamente o material original. Nova aposta de terror da Netflix, a trilogia Rua do Medo parte desse mesmo exercício ao adaptar os livros de R.L. Stine (mais conhecido por Goosebumps) e homenagear os clássicos do gênero de terror.

A trama desta primeira parte, como diz o título, se passa em 1994 na cidade de Shadyside, conhecida por eventos horripilantes que assombram os moradores há séculos. Após uma nova tragédia local, Deena (Kiana Madeira) e seus amigos adolescentes se tornam alvos de um mal antigo e precisam descobrir juntos como sair vivos da situação.

A diretora e co-roteirista Leigh Janiak conhece bem o universo criado por Stine e as “regras” que compõem um bom slasher, e coloca tudo isso em campo para proporcionar uma experiência mais estimulante ao público. Tem jump scare, mortes, muito sangue, adolescentes com hormônios à flor da pele e reviravoltas. A montagem é dinâmica e favorece a atualização da trama para os moldes atuais, assim como a escolha pela protagonista e seu interesse romântico.

Sam (Olivia Scott Welch) e Deena (Kiana Madeira) em “Rua do Medo: 1994 — Parte 1”.

As relações entre todos os personagens funcionam mais pelo elenco, que não é necessariamente talentoso, mas tem carisma. Porém, é o amor entre Deena e Sam (Olivia Scott Welch) que é colocado à prova o tempo todo. Os assassinos que perseguem o casal encarnam o conservadorismo, verdadeiro mal da humanidade que assombra as sociedades desde sempre. Assim como se fazia nas obras dos anos 80 e 90, adolescentes são punidos pela prática sexual, mas aqui adiciona-se a camada do preconceito e da reprovação familiar.

Ainda que desperte a discussão, Janiak nunca mergulha propriamente nela, pois parece mais interessada na diversão que os clichês do gênero podem proporcionar do que na reinvenção da roda. Obviamente, o filme surfa na onda da nostalgia, mas as homenagens e referências só incomodam mesmo em relação à quantidade exagerada de músicas da época. Em termos de cinema, a diretora se basta em clássicos noventistas como Pânico (1996), vide a participação de Maya Hawke, e Eu Sei O Que Vocês Fizeram no Verão Passado (1997), mas não desperdiça a oportunidade de voltar um pouco mais e incluir O Iluminado (1980) na brincadeira.

Os últimos minutos são o momento em que o longa-metragem deixa seus defeitos mais escancarados, não funcionando nas tentativas de surpreender o espectador e tendo que lidar com as dinâmicas de uma narrativa dividida em capítulos. Em atitude inédita, a Netflix programou o lançamento da trilogia inteira para o mês de Julho, com cada filme estreando na plataforma semanalmente. Portanto, Rua do Medo: 1994 — Parte 1 guarda segredos e deixa ganchos para as sequências, 1978 e 1666, se dando por satisfeito em ser o produto de entretenimento rápido e barato que é — e tudo bem.

Avaliação: 3 de 5.

Nota: 3/5