Crítica: Luca (2021)

Luca é uma carta de amor para os verões. (…) Sempre existe esse tipo de verão em nossas vidas, que mudam tudo, nos apresentam pessoas e novas experiências” — Enrico Casarosa (Metrópoles).

Desde que revolucionou o cinema com Toy Story (1995), a Pixar Animation Studios assumiu a frente na produção de animações hollywoodianas. Seja pelo avanço de tecnologias que fizeram a computação gráfica ficar cada vez mais realista ou pela criação de universos cativantes, o estúdio foi colocado em um pedestal e, uma vez no topo, tanto público quanto crítica exigiram produções que validassem suas admirações. Por um tempo as demandas foram cumpridas, mas nos últimos anos encontrou-se um modus operandi nas propostas “ousadas” da empresa, que também passou a intercalar sequências de projetos consagrados e obras originais. Até mesmo o elogiado Soul (2020) é visto como uma repetição das ideias de Divertidamente (2013). Teria o estúdio perdido o encanto e originalidade de outrora?

Independente da resposta para essa pergunta, a nova animação Luca chega ao Disney+ em um cenário de mudanças. A obra dirigida por Enrico Casarosa, que também fez o curta-metragem La Luna (2011), é a primeira produção pensada após a saída de John Lasseter da companhia e já demonstra uma abertura do estúdio para uma renovação de estilos, possibilidade que Casarosa abraça para tornar esta uma obra mais intimista e pessoal. Em suas próprias palavras durante entrevista para divulgação do projeto, “fazer um filme como esse é um jeito maravilhoso de trazer minha casa comigo”.

A partir deste exercício de nostalgia do diretor, então, a trama tem como cenário uma pequena cidade da Riviera Italiana chamada Portorosso e acompanha Luca (Jacob Tremblay), um monstro marinho de 13 anos que decide explorar a superfície ao lado do novo amigo, Alberto (Jack Dylan Grazer). Ambos se dirigem à cidadezinha, onde os habitantes humanos acreditam que os seres do mar são uma ameaça. Graças às suas habilidades de assumir a aparência dos humanos quando estão fora da água, os dois amigos passam a viver disfarçados.

Influenciado, segundo ele, por obras de Hayao Miyazaki e Federico Fellini, além de nutrir um nítido carinho pela música italiana das décadas de 50 e 60, Casarosa constrói uma história de menor escala e se aproxima de aventuras de verão europeus, com narrativa mais leve e não tão obcecada com a relação de causa e efeito típica do cinema norte-americano. Os sonhos e voos imaginários de Luca reforçam a relação com as animações de Miyazaki, mas também são momentos que o filme aproveita para assumir uma estética que remete a livros infantis e se entregar aos simbolismos.

Arte conceitual da divulgação de “Luca”.

O contexto de intolerância da trama remete até mesmo às referências projetadas pelo público no início da divulgação do projeto — na época, muito se falou das semelhanças da obra com Me Chame Pelo Seu Nome (2017) e A Forma da Água (2017). Ainda que nunca aborde homofobia e sexualidade de forma literal e se venda mais pela cartilha da auto-aceitação, há alegorias suficientes para que a produção se identifique com a comunidade LGBTQIA+.

A repressão dos sentimentos, a incompreensão e intolerância dos pais, a fuga de casa na busca por semelhantes, a exclusão; são vários cenários que podem ser lidos por esse ponto de vista, ainda mais quando o roteiro de Jesse Andrews e Mike Jones entrega frases como “Você me tirou da ilha, Luca. Eu estou bem” ou “Algumas pessoas nunca vão aceitá-lo, mas outras vão, e parece que ele sabe encontrar as pessoas certas”. As mensagens nunca são literais, obviamente, mas o filme não se exime da responsabilidade social de ter um discurso claro sobre auto-aceitação e de acolhimento ao diferente.

Essa não-literalidade sobre os temas ainda abre espaço para que Casarosa promova uma experiência mais sensorial. As viagens imaginárias de Luca são antecedidas por breves momentos de libertação dele, como quando ele e Alberto constroem uma moto e “voam” por alguns segundos antes de caírem ao mar. Mesmo durante a aventura, o filme nunca se esquece da jornada interna do personagem principal. É por isto que a amizade com Giulia (Emma Berman), os momentos de humor e a disputa contra o vilão Ercole (Saverio Raimondo) no triatlo da região são tão bem integradas dentro da trama. São personagens e situações que carregam uma leveza e despretensão que há tempos não se viam nas animações.

Ao fim, Luca é uma aventura de menor escala que não deixa de ser interessante por causa disto. Dentre as animações da atualidade, talvez seja a que melhor se propõe a falar com as crianças de forma diferente, oferecendo um olhar mais lúdico sobre questões internas ao invés de aventuras aceleradas e cheias de estímulos. E para quem diz que o estúdio está perdendo o encanto: Silenzio, Bruno!

Avaliação: 4 de 5.

Nota: 4/5