Crítica: Em Um Bairro de Nova York (2021)

Não é segredo para ninguém que, quando começou a escrever In The Heights, Lin Manuel Miranda tinha o sonho de celebrar o bairro onde cresceu, Washington Heights, nos palcos da Broadway. Mas ele foi além. Sua primeira peça musical de 2008 se tornou um marco cultural vencedor de 4 prêmios Tony, uma ode à população latina e o grande ponto de virada em sua carreira, que ainda conta com a obra-prima Hamilton.

Usnavi (Anthony Ramos) também tem o seu sonho — ou melhor, sueñito. Vendedor de um mercadinho de Washington Heights e o narrador-protagonista da história, cuja adaptação cinematográfica chega ao Brasil com o título Em Um Bairro de Nova York, ele sonha em voltar para a terra dos pais, na República Dominicana. É através de muita música e dança que Usnavi revela sua vida e os sonhos que as pessoas de seu bairro carregam.

Tem quem queira mudar de casa, aqueles que sonham em conseguir uma educação de qualidade e outros que desejam apenas se encaixar no mundo. Em um dos números principais, a canção “96,000”, cada personagem revela o que faria caso ganhasse na loteria. É uma das sequências que melhor demonstra a variedade das composições de Lin Manuel Miranda, que parte do hip-hop e abraça vários gêneros musicais — ele, inclusive, faz aparições pontuais nesta nova versão.

O diretor Jon M. Chu resgata do início de sua carreira (na franquia Ela Dança, Eu Danço) o interesse da câmera pela dança enquanto elemento principal de um filme musical, algo que Hollywood esqueceu nos últimos anos. Aliás, o cineasta une suas principais obsessões para promover o turbilhão de temas que se sucedem pelas próximas 2h30: a dança, a música e os exageros. A celebração da herança latina, o fenômeno migratório, as passeatas de protestos, as relações entre diferentes culturas; tudo é tratado com a mesma grandiosidade de Podres de Ricos (2018), seu trabalho anterior. Porém, se antes ele evidenciava os exageros daquela “minoria super modelo”, aqui Chu ensaia um discurso sobre a necessidade de dar beleza e valor aos sonhos de pessoas comuns.

Abuela Claudia (Olga Merediz) canta “Paciencia Y Fe”.

Principalmente no primeiro ato, o filme é uma explosão de otimismo e cada música parece alterar drasticamente seu estilo, como se o longa-metragem fosse uma colagem de vários videoclipes com os mesmos personagens. É uma dinâmica que pode se tornar cansativa, especialmente quando alguns arcos vão se mostrando dispensáveis, como é o caso da relação entre Nina (Leslie Grace) e Benny (Corey Hawkins). A canção principal da dupla, “When The Sun Goes Down”, é um dos pontos baixos da produção, exagerando nos efeitos visuais e na pieguice.

A trama de Usnavi também ganha contornos exagerados, pois o roteiro de Quiara Alegría Hudes utiliza-se do framing device para dar importância demais a quem parecia ser apenas o fio condutor dessa história. Mas, ainda que jogue luz neste e em outros problemas do filme, o segundo ato fortalece o musical por ser mais contido. Depois de “Paciencia Y Fe”, performada pela incrível Olga Merediz, os números são mais espaçados entre si, os personagens começam a lidar com os problemas e os temas ganham o tom de seriedade que precisavam. É a pausa necessária para que, mais ao fim, “Carnaval del Barrio” e o “Finale” deixem suas marcas.

Ao fim, o elenco se comprova talentoso em sua maioria e não deixa a desejar na performance das músicas. O design de produção do filme parece fazer jus à peça original, principalmente porque, mesmo entre seus excessos, a obra parece nunca se esquecer de que deve ser uma homenagem aos pequenos bairros e às pessoas comuns. Em Um Bairro de Nova York deixa a sensação de que em cada reunião de família grande de periferia, nas fofocas dos salões de beleza ou atrás dos balcões das pequenas lojas; cada lugar desse tem um sonho que, por mais simples que seja, também pode ser “coisa de cinema”.

Avaliação: 3.5 de 5.

Nota: 3.5/5