Crítica: Falcão e o Soldado Invernal (2021)

ATENÇÃO: Este texto possui alguns spoilers da série!

Originalmente, Falcão e o Soldado Invernal seria o primeiro passo da nova fase da Marvel após Vingadores: Ultimato (2019) e Homem-Aranha: Longe de Casa (2019). A pandemia alterou os planos do estúdio e a série ficou para depois de WandaVision (2021), tomando o lugar desta nas sextas-feiras do Disney+. Com o fato de ambas serem as primeiras produções televisivas do Marvel Studios, fica difícil não comparar os erros e acertos de cada uma num primeiro instante.

WandaVision foi cheia de mistérios que engajaram a audiência durante semanas, episódios curtos e uma forma narrativa mais particular, diferente daquilo que já foi visto no MCU. Já Falcão e o Soldado Invernal trilha um caminho mais conservador em seu formato, com uma narrativa linear recheada de clichês do cinema de super-heróis, um tom mais sério, além de ter episódios mais longos. Se a primeira trabalha com uma narrativa mais seriada, a segunda se aproxima da ideia de um filme de 6 horas. Ainda que ambas funcionem mais como preparação para o futuro das franquias cinematográficas do que qualquer outra coisa, WandaVision possui elementos que a fortalecem como obra isolada e trabalha seus protagonistas com competência. O mesmo não pode ser dito da produção dos parceiros de Steve Rogers.

A trama acompanha Sam Wilson/Falcão (Anthony Mackie) em sua jornada de aceitação para se tornar o novo Capitão América. Ao mesmo tempo, ele deve enfrentar, ao lado de Bucky Barnes/Soldado Invernal (Sebastian Stan), os Apátridas, um grupo organizado a partir da ideia de que a vida na Terra era melhor durante o blip — os cinco anos em que metade da população mundial ficou extinta por causa do estalar de dedos de Thanos. Eles defendem um mundo unificado, sem fronteiras, e se colocam contra as medidas de organizações governamentais que tentam restabelecer a ordem após o retorno dos desaparecidos.

Logo no primeiro episódio, a série do roteirista Malcolm Spelman mostra que veio para entregar pelo menos cenas de ação grandiosas como as que o público está acostumado nos blockbusters do estúdio. A abertura é empolgante e coloca Sam Wilson no centro da pancadaria como nunca aconteceu antes. Infelizmente, as batalhas dos episódios seguintes não são tão inspiradas e, ainda que funcionem, caem no convencional do gênero.

Bucky, por sua vez, aparece com o objetivo de reparar o mal que causou em seus dias como assassino da HIDRA. Porém, a partir do momento que se junta a Sam, suas questões ficam de lado e são apenas retomadas no episódio final — mesmo que tenha seu nome no título, logo fica evidente que o papel do Soldado Invernal continua como coadjuvante. O carisma de Anthony Mackie e Sebastian Stan, conhecido das entrevistas que ambos já fizeram juntos, se reflete em tela, mas fica longe da dinâmica de comédias de ação policial como Máquina Mortífera (1987) que os trailers tanto venderam. O roteiro pouco oferece aos atores e o desenvolvimento de personagens (não apenas deles dois) só passa a tomar corpo na segunda metade da temporada. A série parece não decidir qual história quer contar — a origem de um Capitão América negro ou um thriller político — e acaba fazendo tudo pela metade.

A trama dos Apátridas é confusa e nem o caráter expositivo dos diálogos contribui para melhor compreensão da agenda do grupo terrorista. Sua líder, Karli Morgenthau (Erin Kellyman), até traz pontos relevantes ao desenvolvimento de Sam, com diálogos interessantes sobre a maneira “correta” de se defender um ponto de vista. Porém, falta uma exploração do passado da personagem para justificar melhor seus traumas e motivações. Um flashback contando sua história daria explicações mais claras sobre a formação dos Apátridas e sobre como ações insensíveis de governos deixaram milhões na miséria após o retorno de metade da população. Da forma que é apresentada, a discussão geopolítica sobre os impactos do blip (um óbvio paralelo à situação de pessoas refugiadas pelo mundo) é rasa e, portanto, indiferente ao espectador. Parece uma tentativa da produção de se colocar como entretenimento sério/adulto, mas essa suposta seriedade nunca se sustenta. No último episódio, a trama se entrega às fantasias do mundo dos quadrinhos quando o herói resolve os problemas com um discurso em frente às câmeras. É quase como se He-Man surgisse para falar das grandes lições aprendidas durante a aventura.

Wyatt Russell como John Walker/Agente Americano.

Um dos arcos mais satisfatórios da série é o de John Walker (Wyatt Russell), soldado escolhido pelo governo norte-americano para ser o novo Capitão América. Entre os atores, Russell é quem melhor entende a força de seu personagem e da temática acerca da política armamentista dos Estados Unidos. Mesmo que o roteiro e a direção abracem as formas mais óbvias de escancarar as contradições de John, vide o escudo sujo de sangue, Russell sabe aproveitar certos momentos. O discurso em frente aos senadores, por exemplo — “Eu fiz apenas o que vocês me pediram, o que me disseram para ser e me treinaram para fazer. E eu fiz bem” — , é um dos bons momentos da série. Recebendo o nome de Soldado Americano (US Soldier) no capítulo final, John Walker é um dos personagens mais promissores da Marvel para os próximos anos.

A discussão sobre a figura do Capitão América enquanto símbolo dos EUA não fica apenas nos ombros de Walker. Isaiah Bradley (Carl Lumbly), homem negro que sofreu experimentos para aperfeiçoamento do soro do super-soldado durante a Guerra da Coreia, na década de 1950, e cuja história permaneceu desconhecida ao longo dos anos, traz o racismo sistêmico para o centro desse problema. “Eles nunca vão deixar um homem negro ser o Capitão América”, diz ele e é justamente a constatação dessa realidade que impulsiona Sam a buscar mudanças, começando pela ressignificação do escudo. É uma trama importantíssima para o crescimento do personagem e merecia mais tempo de tela, principalmente porque é nítido o tratamento mais cuidadoso e honesto pelo roteiro.

A série ainda possui participações de Sharon Carter (Emily VanCamp) e Barão Zemo (Daniel Brühl), além da introdução da misteriosa Val, interpretada por Julia Louis-Dreyfus. Ainda que tenham funções narrativas que justifiquem suas participações, esses personagens fortalecem a impressão de que a série organiza as peças no tabuleiro do MCU, mas está longe de ser o jogo de xadrez em si. É uma situação recorrente do universo Marvel e aqui, mais uma vez, atrapalha a jornada individual do protagonista mais do que deveria.

Seja devido à conhecida pressão do comandante do Marvel Studios, Kevin Feige, para a inserção de tramas inúteis ou apenas incapacidade de articular melhor suas boas ideias, é evidente que a equipe de roteiristas de Falcão e o Soldado Invernal faria bom uso de mais alguns episódios para desenvolver tudo melhor. Com um novo filme do Capitão América em desenvolvimento, resta aos fãs torcerem para que entreguem o que Sam Wilson merece como novo dono do escudo.

Avaliação: 2 de 5.

Nota: 2/5