Se importar com cinema, séries e audiovisual em geral é saber a importância que o som tem na sua vida. Não só relacionados aos produtos culturais que consumimos, como filmes, músicas e podcasts, mas também às conversas e até aos barulhos que nos cercam. Não consigo imaginar minha vida sem som e tenho pavor de qualquer possibilidade que isso um dia aconteça.
A perda de audição de Ruben (Riz Ahmed) em O Som do Silêncio começa de repente e ele também fica com medo. Baterista de heavy metal, ele se encontra incapacitado de exercer o trabalho que ama e continuar a turnê de shows ao lado namorada e parceira musical Lou (Olivia Cooke). Para aprender a lidar com a nova realidade, ele é levado a uma comunidade de pessoas com deficiência auditiva, onde conhece Joe (Paul Raci), um veterano que perdeu a audição na Guerra do Vietnã.
É interessante como o filme brinca com nossas expectativas logo de início. O longa-metragem abre com uma intensa performance de Ruben em um show para depois mostrá-lo como uma pessoa atenciosa e carinhosa com quem está ao seu lado. Você espera eventos duros e agitados, mas o diretor e co-roteirista Darius Marker entrega delicadeza.
A relação de Ruben e Lou é o grande motor do filme. Por mais que não demore para que eles se separem e o rapaz inicie seu tratamento, o relacionamento é tão bem estabelecido nos minutos iniciais que ele permeia toda a narrativa. Ruben, por vezes, tira forças de um futuro reencontro com Lou para resolver sua situação, conseguir dinheiro para uma cirurgia e, pensa ele, retornar à vida como ela era.
É fácil para um filme desse tipo, que tem a relação de um casal como principal dispositivo potencializador do drama, caia num tom piegas de romance. O roteiro até fornece algumas viradas para que isso aconteça, mas tanto os atores quanto a direção não escolhem o caminho mais fácil. Darius Marker aborda os relacionamentos de Ruben com inteligência, focando no que é necessário sem ser intrusivo. Quando a câmera sutilmente mostra as marcas no braço de Lou, você compreende o passado da personagem e como a relação do casal foi importante para ambos em um momento difícil. Ou quando a tatuagem de outra personagem é mostrada para enfatizar a evolução na relação de Ruben com as pessoas da comunidade. São simplicidades que demonstram um domínio de Marker na forma de contar a história.

Riz Ahmed, que passou mais de um ano aprendendo linguagem de sinais e a tocar bateria para o papel, tem nas mãos um personagem complexo. A surdez desperta em Ruben um desespero que o faz ser atormentado pelos traumas de um passado de abuso de drogas e ele desconta a frustração com a situação através de acessos de raiva e impaciência. Em mãos erradas, o papel poderia cair para um lado caricatural ou exagerado, mas Ahmed encara esse turbilhão de sentimentos e encontra um equilíbrio muito delicado. Olivia Cooke, por sua vez, entrega bastante para alguém que pouco aparece e sua personagem passa por um desenvolvimento fora de tela, oferecendo mais possibilidades ao trabalho da atriz.
O restante do elenco é formado a partir de pessoas com a mesma deficiência que interpretam em cena. O filme possui uma interessante visão anti-capacitista e dá holofotes a diversas representações da comunidade surda, normalmente vítima de estereótipos e preconceitos. Paul Raci é quem rouba a cena neste contexto. É de seu personagem que saem as observações mais incisivas da comunidade e os melhores conselhos para Ruben. O ator tem presença de tela e se utiliza dela para que Joe entregue firmeza mesmo quando é carinhoso; convicção e calma mesmo quando confrontado.
Ao fim, O Som do Silêncio é uma grata surpresa, principalmente por ser mais sensível e inteligente do que você espera dele à primeira vista, seja na forma que a narrativa é conduzida, na fotografia intimista ou no incrível trabalho de design de som.
Nota: 4/5

