Crítica: Nomadland (2020)

Nomadland, grande favorito ao Oscar 2021, segue as cartilhas que Walter Salles define para um road movie em seu texto para a The New York Times Magazine em 2007. O brasileiro afirma que “os road movies mais interessantes são aqueles em que a crise de identidade do protagonista espelha a crise de identidade da cultura em si”. Ele também diz que o gênero de “filmes de estrada” ainda é necessário, especialmente em um mundo que é “ditado por um novo tipo de imigração: a econômica [na qual] as pessoas viajam cada vez mais porque precisam e não porque querem”.

Com isso em mente, não é surpresa que um retrato da América atual parta de um cenário dominado pela precarização do trabalho e pela crise imobiliária e tenha como protagonista uma mulher (Frances McDormand) que perdeu tudo durante a Grande Recessão. Fern decidiu viver como nômade e parte em busca de terras novas tal qual os protagonistas de diversos exemplares do gênero. No seu caso, não é porque elas representam uma expansão das fronteiras, mas sim porque guardam novas e melhores perspectivas de futuro.

A cineasta Chloé Zhao, que assina direção, roteiro e montagem do projeto, adota um tom realista e flerta com o documental para ilustrar suas ideias. Os personagens que Fern encontra na estrada são pessoas reais interpretando versões fictícias de si mesmas e Frances McDormand se coloca como a interlocutora perfeita para esse experimento. Especialmente na primeira metade do filme, é interessante acompanhar o quanto essas interações, levando em conta a dinâmica proposta, contribuem para a jornada da personagem principal.

A cinematografia de Joshua James Richards, por sua vez, é a principal arma que o longa-metragem escolhe para enquadrar esse conceito dos Estados Unidos atual: belíssimo, cheio de pontos turísticos, mas que vive mergulhado na contradição das condições precárias de seus trabalhadores. É claro que essa captação com imagens bonitas dá a impressão de que o filme normaliza tal situação. As gravações nas dependências da Amazon aconteceram justamente pela falta de profundidade no tema e o filme se justifica dessa quase isenção apostando no estudo de personagem. O problema é que este é justamente seu ponto mais fraco.

Chloé Zhao e Frances McDormand durante as filmagens de “Nomadland”.

Se por um lado McDormand carrega com naturalidade as interações com os outros personagens, a jornada de Fern por liberdade nunca alcança o status que deseja. Citando novamente Salles: “Porque road movies precisam traçar uma transformação interna dos personagens, os filmes não são sobre o que pode ser visto ou verbalizado, mas sobre aquilo que pode ser sentido — sobre o invisível que complementa o visível”. É essa elevação interna que nunca se torna realmente instigante para o espectador em Nomadland e às vezes quase o faz cair na armadilha de se tornar o estereótipo do filme reflexivo com trilha sonora de autoajuda.

Não é à toa que o projeto perca força no último ato, pois é o momento que deixa suas melhores ideias de lado para tratar de uma jornada que parece não saber muito bem aonde quer chegar. Ao mesmo tempo, é justamente por essa escolha que Nomadland chega ao Oscar como frontrunner, visto que isso o aproxima de um cinema ideal segundo a Academia e o encerra num meio termo entre o artístico, o político e o industrial. Talvez, ao contrário de outros vencedores recentes da premiação, o filme até busque uma certa liberdade dessas amarras (e chega a conseguir em alguns momentos), mas Chloé Zhao abraça as contradições de seu projeto igual os americanos abraçam as do seu país.

Avaliação: 3.5 de 5.

Nota: 3.5/5