Crítica: Judas e o Messias Negro (2021)

Fica uma sensação estranha ao fim de Judas e o Messias Negro. Por mais que o filme cumpra com seu objetivo principal de jogar luz sobre a história de Fred Hampton, líder do Partido dos Panteras Negras de Chicago que foi assassinado em 1969, como se pudesse corrigir o estrago causado pela campanha racista e anticomunista do governo dos EUA na época, em diversos momentos a obra parece não saber muito bem qual história quer contar.

Isso porque, apesar de se apresentar como uma história focada em Bill O’Neal (Lakeith Stanfield), o militante negro infiltrado pelo FBI para espionar Hampton (Daniel Kaluuya) e sabotar o movimento dos Panteras, o longa-metragem não demonstra muito interesse em seu protagonista.

Assistir ao filme é ficar o tempo todo com a impressão de que, em algum momento durante a produção, o diretor e co-roteirista Shaka King percebeu que a história do “Messias negro” precisava de mais atenção e decidiu equilibrar seu tempo de tela com o “Judas”. Essa escolha acaba afastando o projeto do tom meio Os Infiltrados (2006) que ele carrega e nunca abraça. A ideia de King não é se aproximar tanto do cinema de gênero, mas se tornar uma obra marcante dentro do contexto atual do pós-Black Lives Matter — daí surgem as comparações bíblicas que, pela maneira que o filme as apresenta, são bem colocadas.

Shaka King durante as filmagens de “Judas e o Messias Negro”.

Se um dos principais talentos de Jesus e do verdadeiro Fred Hampton era a oratória, o longa-metragem sabe que sua força reside nela e aproveita os momentos de discurso para inflamar o espectador, seja com close-ups em Daniel Kaluuya (que entrega uma atuação poderosa, consciente da importância das expressões corporais e do tom de voz para seu trabalho) ou com a música de Craig Harris e Mark Isham. A jornada de Bill O’Neal, ainda que prejudicada, também funciona, mas mais por mérito de Lakeith Stanfield, que sabe trabalhar os conflitos de um personagem que, com o passar do tempo, se sente vilão por causa da traição ao movimento, mas também vítima das condições impostas pelo agente Roy Mitchell (Jesse Plemons, outro grande ator). Dominique Fishback, que dá corpo à ativista e parceira de Hampton, Deborah Johnson, também trabalha sua transformação dentro do Partido dos Panteras Negras com muita segurança.

O elenco, que ainda conta com Martin Sheen como J. Edgar Hoover, está tão bem que, por muitas vezes, mascara alguns problemas do roteiro de Shaka King e Will Berson. É estranho como ambos não conseguem equilibrar muito bem a infiltração de O’Neal, que funcionaria melhor numa relação de causa e efeito com as ações do traidor influenciando as dos Panteras mais diretamente, mas são capazes de desenvolver personagens coadjuvantes de maneira que beneficie seus protagonistas e crie um elo do espectador com o que acontece em tela. A cena que Roy Mitchell comparece ao discurso de Hampton e o que isso gera em Bill O’Neal é um dos grandes momentos do filme.

É claro que, ao tratar de Fred Hampton, não se pode deixar de fora a agenda socialista. A obra tenta retirar a imagem de terroristas colocada nos Panteras Negras pela propaganda estadunidense e demonstra os trabalhos sociais do partido com seu discurso em prol de melhores condições de vida e acesso à saúde e moradia para populações carentes. É verdade que a exploração desse tema não vai muito além. O próprio Hampton cita um Che Guevara ali, um Marx aqui, mas tudo carrega uma vibe meio genérica que aproxima o filme das frases prontas que encontramos aos montes por aí — mas será que poderíamos esperar algo mais de um projeto de alto orçamento de um grande estúdio de Hollywood?

Por fim, como falei, Judas e o Messias Negro cumpre seu propósito de dar visibilidade à uma nova história do ativismo negro além de Martin Luther King e Malcolm X, e o faz com uma energia que empolga o espectador e atiça a curiosidade. Enquanto obra cinematográfica, porém, ela deixa uma dúvida do que poderia ser, se fosse um pouquinho mais aberta a outras possibilidades de contar essa história.

Avaliação: 3.5 de 5.

Nota: 3.5/5