A trama de Meu Pai se passa inteiramente dentro de um apartamento, onde mergulhamos nas memórias confusas de Anthony (Anthony Hopkins), um senhor de idade que começa a sofrer com os males da velhice. Que estamos em uma época de pandemia, lockdowns e isolamento não é novidade para ninguém, mas nada me tira da cabeça que este contexto cria uma nova camada de empatia do espectador em relação à jornada de deterioração mental do protagonista.
A repetição de cenário, a confusão do passar do tempo, a reflexão sobre as memórias mais profundas e a solidão desse período difícil são experiências típicas do atual momento, independente da idade. O filme todo se apresenta como um devaneio e, ainda que tenha um peso obviamente diferente da jornada do protagonista, é significativa a relação entre as sensações que a obra provoca e o contexto na qual foi lançada. Se isso impulsionou o longa-metragem nas grandes premiações, eu não sei, mas deixo a provocação aqui.
O que importa para o filme é Anthony e como sua desorientação se intensifica a cada nova cena. Com isto, o cenário passa a sofrer pequenas alterações (excelente trabalho do departamento de design de produção) e os atores com os quais ele interage mudam. O diretor Florian Zeller, que adapta aqui sua própria peça, controla essa narrativa com muita rigidez e trata de revelar os detalhes da vida do protagonista aos poucos, dando um pouco mais de destaque para a relação com a filha Anne (Olivia Colman).

No início, essas dinâmicas são interessantes, mas o tempo passa, o desfecho vai se tornando óbvio e fica claro que Zeller se acomoda em suas escolhas. Fica tudo mecânico demais. As inconsistências decorrentes da demência só vão até o ponto que é conveniente para prender a atenção do espectador, que se vê preso em um jogo repetitivo. É como se o filme tivesse apenas um truque que, para disfarçar a falta de repertório, se altera levemente toda vez que aparece.
Cai nas costas do elenco, então, a responsabilidade de trazer peso para essa jornada. O destaque, obviamente, é Hopkins. O ator veterano entrega mais uma de suas grandes atuações, se mostrando mais vulnerável a cada cena e arrancando lágrimas quando alcança o ápice do drama do personagem. Olivia Colman, por sua vez, dá atenção aos detalhes para construir sua Anne, uma mulher que toma decisões difíceis para ajudar o pai da melhor maneira que pode. Já Mark Gatiss, Olivia Williams, Imogen Poots e Rufus Sewell dão conta do jogo proposto pela troca de papéis.
Para quem já viveu situações semelhantes com alguém querido, é quase impossível não se identificar com Meu Pai. Por mais que o filme dependa excessivamente do talento de Hopkins para funcionar, são inegáveis os esforços técnicos de Zeller para trazer uma nova perspectiva da velhice no cinema, ainda mais se tratando de seu primeiro trabalho como diretor.
Nota: 3/5

