É muito interessante como David Fincher criou um estilo simples, mas particular da sua filmografia: decupagem minuciosa, montagem dinâmica, câmera precisa no trabalho dos atores e tramas que envolvem PESSOAS COMPLETAMENTE MALUCAS E PSICOPATAS. Os melhores exemplos do uso desses elementos estão em seus principais trabalhos dos anos 2000, como a série Mindhunter (2017–2019) e os filmes Zodíaco (2007), A Rede Social (2010) e Garota Exemplar (2014).
Pensando nisso, é curioso como Mank, seu mais novo trabalho, foge dessas características e ainda assim se torna a obra mais pessoal da sua carreira. Muito se deve ao fato de que o roteiro foi escrito por seu pai, Jack Fincher, que mesmo falecido em 2003 é creditado como único roteirista do projeto. Outro ponto é o fascínio que Fincher (como praticamente todos os entusiastas da sétima arte) tem por Cidadão Kane (1941) e pelos processos que o levaram a se tornar a maior obra do cinema norte-americano. Já não bastasse tudo isso, Mank ainda segue a preferência do diretor por um protagonista gênio e auto-destrutivo.
A trama gira em torno do roteirista de Cidadão Kane, Herman J. “Mank” Mankiewicz (Gary Oldman), e sua corrida contra o tempo para terminar o primeiro roteiro do filme enquanto se recupera de um acidente de carro em uma casa de campo. O retrato deste período crucial para a construção do clássico dirigido, co-escrito, produzido e estrelado por Orson Welles (Tom Burke) ressuscita o debate sobre os créditos do texto do clássico, popularizado através do artigo “Raising Kane”, escrito na década de 70 por Pauline Kael. Nele, a crítica defendia que Welles não era o grande responsável pelo sucesso de Cidadão Kane e buscava legitimar a luta de Mankiewicz pelo crédito do texto e a grande contribuição do roteirista à obra.
Ainda que a posição de Kael tenha sido condenada ao longo dos anos com indicações da participação conjunta de Welles na elaboração do roteiro, e ainda que Mank não se baseie diretamente no texto da crítica, o filme de Fincher toma emprestado alguns elementos levantados por Kael, principalmente aqueles relacionados ao arco dramático de seu protagonista.
Tal como “Raising Kane”, o roteiro de Jack Fincher define seu Herman J. Mankiewicz como uma pessoa falha, um alcoólatra, apostador, constantemente endividado — mas ao mesmo tempo um artista genial. Com essas características na mesa, então, o filme associa todas as relações do personagem a um desgaste imenso por parte de quem se propõe a lidar com ele.
A esposa Sara (Tuppence Middleton), o irmão Joe (Tom Pelphrey), os magnatas William Randolph Hearst (Charles Dance) e Louis B. Mayer (Arliss Howard), Orson Welles… Todos entram em conflito com Mankiewicz em algum momento, mas é quase em vão. Nenhum desses embates levam o protagonista a algum lugar de fato, pois não há consequências significativas para suas atitudes. Mesmo sendo uma figura controversa, o protagonista tem seus bons valores reafirmados a todo momento — e da maneira mais pragmática possível.
No campo intelectual, não existe exploração satisfatória da suposta genialidade de Mankiewcz, além do fato dele estar escrevendo aquele que se tornaria o maior clássico do cinema. Pode-se dizer, inclusive, que o filme não tem o menor interesse em qualquer outro trabalho de sua carreira. Já a esfera emocional tem seu motor na relação do roteirista com a secretária Rita Alexander (Lily Collins), que o auxilia durante o período de criação. Porém, o desenvolvimento disso soa protocolar, portanto, convencional e calculado demais, ainda mais aliado à conhecida frieza de Fincher no tratamento de seus personagens. Ao longo das 2h11 de filme, nenhuma virada e revelação sobre o protagonista parece capaz de despertar alguma empatia do espectador. Não existem argumentos suficientes para colocar Mank na posição de gênio renegado, tampouco simpatia com seus problemas.

Obviamente, Mank tem boa parte de seu apelo por causa de Cidadão Kane e o filme se aproveita bem disso. O esforço para recriar a Hollywood dos anos 30 revela um trabalho incrível das equipes de figurino e design de produção. Fincher, por sua vez, faz um exercício estilístico e aposta em planos mais longos e numa montagem mais lenta para emular o cinema do período. Mas não deixa de ser estranho que um filme tão metódico e obcecado nesse sentido de reconstrução de época, que chega a fazer uso do som mono e ter queimaduras de cigarro nos “fotogramas”, se apresente ao mundo no aspect ratio widescreen da fotografia digital de Erik Messerschmidt. A trilha sonora de Trent Reznor e Atticus Ross também carrega um olhar contemporâneo, mas acerta o tom nos principais momentos.
A inspiração não fica apenas na estética e se estende à narrativa, com flashbacks estruturados como na reconstituição da vida de Charles Foster Kane no filme clássico. Aqui, eles nos inserem na Los Angeles da década de 30 e nas situações que inspiraram Mankiewicz a escrever o roteiro anos depois. Mais ainda, as memórias revelam o verdadeiro objeto de interesse de David Fincher: a relação da indústria cinematográfica da época com a disputa política entre Frank Merriam e Upton Sinclair pelo posto de governador da Califórnia em 1934.
Ainda que demore para acontecer, é nesse momento de revelação sobre as intenções de seu diretor que Mank acerta a dinâmica entre as linhas narrativas e fisga o interesse do espectador. De um lado, agora temos tudo que envolve Mankiewicz, Welles e Kane na casa de campo em 1940. Do outro, temos as disputas internas dos estúdios na década de 30 e sua influência na política do estado.
É só quando essas duas ideias estão estruturadas que Fincher deixa claro que não se preocupa tanto com quem merece mais crédito sobre o texto de Cidadão Kane, mas em como os rumos da sociedade estão atrelados ao poder de uma boa narrativa, que neste caso teve o cinema como principal veículo de ataque a ideais progressistas e disseminação de informações falsas. Mais ainda, o cineasta coloca as figuras de poder de Hollywood entre os principais financiadores dessa estrutura que se mantém até hoje.
Não é difícil encontrar críticas por parte de David Fincher à indústria cinematográfica, visto que essa relação não é saudável desde o primeiro filme do diretor, Alien 3 (1992), do qual ele não teve poder sobre o último corte. Mas é só através dessa análise do studio system que ele deixa seu desdém transparecer em seus filmes pela primeira vez, fazendo com que essa não seja apenas sua obra mais pessoal, mas também a mais política.
Ao fim, Mank não cativa o espectador por seus personagens, o que é um grande problema para um filme que se desenvolve a partir das relações do protagonista. O retrato melancólico da impotência do homem dentro das engrenagens do sistema só funciona graças ao envolvimento pessoal de Fincher e a leve experimentação por novas linguagens a qual ele se propõe. Com um roteiro mais bem acabado, teria mais destaque na carreira do cineasta.
Nota: 3/5

