Ao assistir Greyhound: Na Mira do Inimigo fica difícil não compará-lo a outro filme de guerra recente: Dunkirk. Isso porque Aaron Schneider, diretor aqui em questão, também tem interesse pelas mecânicas de uma batalha localizada e os braços que fazem a engrenagem da 2ª Guerra funcionar. Ao longo de 1h30, o cineasta procura uma maneira de ilustrar o horror do conflito como um companheiro de rotina das pessoas ali envolvidas, desde o cozinheiro até o capitão do navio.
No caso, o capitão atende pelo nome de Krause (Tom Hanks) e é responsável pelo Greyhound, navio que lidera uma escolta marinha encarregada de transportar tropas e recursos militares para Liverpool, Inglaterra. Por um período de 50 horas, o capitão e seus tripulantes precisam atravessar um trecho do Atlântico sem suporte aéreo e se tornam alvos de submarinos alemães. A partir daí, acompanhamos os personagens lidarem com a pressão de fazer um bom trabalho, pois não fazê-lo pode significar a morte.
Não necessário ir muito longe para enxergar Tom Hanks no papel de um capitão, pois ele o adotou muitas vezes ao longo da carreira. Nesse novo trabalho, porém, Hanks decidiu ocupar também o cargo de roteirista e criou seu próprio conto naval de 2ª Guerra tendo o livro The Good Shepherd, de C. S. Forester, como base. Além do protagonista, as dinâmicas de comando da tripulação e a reconstituição da tecnologia da época parecem ser os grandes pontos de interesse do roteiro — e são aquilo que Schneider melhor sabe aproveitar para criar um cenário de isolamento.
O diretor foca na situação ingrata que aqueles personagens se encontram. Além do constante confronto com os submarinos alemães, Krause e seus tripulantes enfrentam as condições do mar agitado e o frio que chega a congelar algumas janelas e atrapalhar a localização dos inimigos. A ansiedade e insegurança da situação são potencializadas pela claustrofobia da embarcação, praticamente único cenário do filme. A fotografia em tons azuis acinzentados de Shelly Johnson e a trilha sonora ininterrupta de Blake Neely contribuem para o clima de tensão constante enquanto a grandiosidade das explosões do combate deixa nítida a intenção dos realizadores em fazer uma obra para a Tela Grande™ — o que não aconteceu, pois com ~Tudo O Que Está Rolando~, a distribuição ficou a cargo da Apple TV+.
Tanto Hanks quanto Schneider não se deixam levar por uma visão heróica e patriota da Guerra. Enquanto roteirista, o renomado ator resiste à tentação de conceder a Capitão Krause um discurso grandioso sobre aquele cenário. Isto não significa que ele não valorize seu trabalho em tela. A distância que o protagonista mantém dos outros personagens revela uma tentativa de Hanks em fazer com que o público compreenda o esforço do personagem para se concentrar nas tarefas de comandante. Essa decisão faz com que Schneider deixe a câmera a todo momento em Hanks, deslocando apenas quando precisa mostrar as consequências de suas ordens ou a reação da equipe sobre elas.

Toda essa dinâmica entre capitão e tripulação prende sua atenção durante uma parcela do tempo, mas é uma tarefa que fica mais difícil conforme diretor e roteirista demonstram pouco interesse no desenvolvimento dos personagens. Contando também com Stephen Graham e Rob Morgan, o elenco faz jus às posições profissionais que ocupam dentro do navio, mas os atores têm poucas oportunidades de demonstrar algo mais. Os perseguidores nazistas são invisíveis: por mais que tentem amedrontar os norte-americanos com transmissões de rádio, eles não têm direito a rostos ou nomes nessa história. Existe uma breve tentativa de humanização dos inimigos, que parte da religiosidade do capitão Krause ao lamentar a morte de 50 almas, mas é algo que fica esquecido nos primeiros minutos. O mesmo acontece com o seu quase pedido de casamento à Evelyn (Elisabeth Shue) na única cena fora daquele cenário de guerra.
Dessa maneira, o longa-metragem escolhe não se aprofundar em qualquer discussão sobre a psique humana. O breve desenvolvimento do protagonista é insuficiente enquanto exploração dos traumas físicos e psicológicos da Guerra, ingrediente principal dos melhores contos sobre os horrores desse período. A tensão acerca do perigo iminente se esvai, pois as dinâmicas entre os personagens não mudam e você se acostuma com tudo aquilo.
Por mais que não exista um problema na escolha de sua linguagem, as consequências dela não se mostram benéficas. Principalmente em sua segunda metade, ainda que seja tecnicamente bem resolvido, o filme convive sempre com o risco de perder a atenção do espectador, que não foi fisgado emocionalmente. É nessa falta de equilíbrio que Greyhound: Na Mira do Inimigo se torna uma obra de pouca expressão na carreira de Tom Hanks e um filme esquecível dentro da temática de 2ª Guerra.
Nota: 3/5

