Crítica: Star Wars: Episódio IX — A Ascensão Skywalker (2019)

“Eu quero viver em um mundo onde crianças de cor não percam suas adolescências desejando serem brancos. Eu quero viver em um mundo onde mulheres não estão sujeitas a escrutínio por suas aparências, ações ou existência. Eu quero viver em um mundo onde pessoas de todas as raças, religiões, classes sociais, orientações sexuais, identidades de gênero e habilidades sejam vistas como aquilo que sempre foram: seres humanos”.

As palavras acima são de Tran Loan em artigo para o New York Times , publicado meses depois dela desativar sua conta no Instagram devido a insultos racistas, xenofóbicos e misóginos feitos por “fãs” que não gostaram de sua personagem em um certo filme de uma franquia milionária.

Você deve conhecer Loan mais como Kelly Marie Tran e a tal franquia como Star Wars. A atriz foi a primeira mulher asiática a ter um papel de destaque na saga dos Skywalker ao interpretar Rose Tico em Os Últimos Jedi (2017), de Rian Johnson, um filme que “ousou” contradizer as expectativas de “fãs” que, por sua vez, recorreram ao anonimato da internet para atacar qualquer elemento que não tenham gostado na obra.

Olha, essa galera cresceu assistindo aos mesmos filmes ano após ano e agora está sendo inundada por franquias que repetem fórmulas na tentativa de emular sentimentos de outra era. Quando Os Últimos Jedi desafiou seus personagens queridos a reverem seus ideais, foi um choque e tanto pra eles.

Eis que chega Dezembro de 2019 e na eira da beira do Natal, Star Wars: A Ascensão Skywalker resgata J.J. Abrams para unir o pior que existe nessa franquia para agradar os fóruns de internet de nerds raivosos. O resultado é obviamente muito pior do que se poderia imaginar.

Se em O Despertar da Força (2015), Abrams se apropriou da fórmula narrativa de Uma Nova Esperança (1977) para ressuscitar a franquia com discursos nos moldes do século XXI, aqui, ao lado do roteirista Chris Terrio — AQUELE de Batman v Superman (2016) e Liga da Justiça (2017) -, ele ignora todos esses avanços. Para se afastar de Rian Johnson, o diretor ainda reafirma antigos mitos e ideais da franquia, construindo sua própria versão mal acabada de O Império Contra-Ataca (1980) e O Retorno de Jedi (1983).

Antes, Rey (Daisy Ridley) era filha de “ninguém”, mas agora é neta de Palpatine (Ian McDiarmid). Dúvidas sobre a orientação sexual de Poe Dameron (Oscar Isaac)? Fique tranquilo, pois ele é um contrabandista mulherengo como Han Solo. Kylo Ren (Adam Driver) reconstrói sua máscara, mas quer saber? Toma uma dose de redenção também. Nem Luke Skywalker (Mark Hamill) pôde ficar em paz e teve que vir se “retratar” sobre sua negação acerca dos Jedi e dos lightsabers.

O problema é que esse processo de reafirmações causa um esvaziamento emocional e de discurso. George Lucas, na obra original da década de 70 e nas prequels, estabelece uma história típica do “pipocão” para tratar de temas políticos, além de apresentar uma linha lógica de raciocínio sobre o que queria afirmar. Em A Ascensão Skywalker, não há nada. O filme se aproxima de um cinema commoditie de repetições de fórmulas, onde não há novidades. Por vezes, se afasta até de suas próprias decisões: Chewbacca morre, mas na cena seguinte é revelado que está vivo; C3PO tem suas memórias apagadas, mas elas são trazidas de volta.

É como diz a cartilha básica do storytelling: sem consequências para seus personagens, o público não se envolve. Assisti ao filme numa sessão de meia-noite lotada e a empolgação dos minutos iniciais foi se esvaindo ao ponto de, na sequência final, restar apenas silêncio por parte da plateia. Se nem a trilha de John Williams te emociona, tem algo muito errado, não?

Kelly Marie Tran como Rose, primeira atriz asiática a ter um papel de destaque na franquia.

Mas e a Rose?

A Rose foi “escanteada” nesse novo filme. Seja por decisão do estúdio para se afastar dos ataques à atriz ou uma escolha de roteiro em negligenciar os eventos de Os Últimos Jedi, o que fizeram com a personagem beira o inadmissível. A única interação da personagem com Finn (John Boyega), com quem teve grande envolvimento no filme anterior, é um tapinha nas costas que ele lhe dá antes de se dirigir à Millenium Falcon. Ela, assim como boa parte da Resistência, assiste os eventos das batalhas e perseguições por telas dos computadores.

Em entrevista ao PerifaCon, na CCXP 2019 , J.J. Abrams diz que o que mais lhe encanta sobre é o fato de se tratar de “um filme para todos. […] Todos de alguma forma se sentem como um peixe fora d’água, deslocados. E a mágica de Star Wars é que esse mundo é para todos. Chega a ser irônico estas palavras saírem da boca do cineasta por trás de uma obra que abraça justamente quem se coloca contrário a este pensamento e não entende minimamente a saga da qual se diz fã.

Ainda naquele artigo do NYT, Kelly Marie Tran falou sobre os comentários que recebia no Instagram: “ As palavras deles pareciam confirmar o que crescer como uma mulher e pessoa de cor já havia me ensinando: que eu pertencia à margens e espaços, válida apenas como uma personagem menor nas suas vidas e histórias”. E, infelizmente, é justamente este papel que restou à Rose e sua intérprete: uma mera figurante daquele universo.

Logo, o tratamento da personagem é um símbolo de tudo o que há de errado com este filme: além de ter um roteiro mal construído e uma direção nada interessante, Star Wars: A Ascensão Skywalker legitima o discurso de agressores e se propõe a satisfazer uma parcela questionável, para dizer o mínimo, do público da franquia. Esse mundo que você construiu, J.J., não é para todos.

Avaliação: 1 de 5.

Nota 1/5