“Later!
The word, the voice, the attitude. I’d never heard anyone use “later” to say goodbye before. It sounded harsh, curt, and dismissive, spoken with the veiled indifference of people who may not care to see or hear from you again.
It is the first thing I remember about him, and I can hear it still today. Later!”
– Call Me By Your Name; André Aciman.
Desde seu lançamento em 2007, o livro Me Chame Pelo Seu Nome, de André Aciman, ressaltava aos olhos de James Ivory e Luca Guadagnino, que cultivaram o desejo de levar a obra literária ao cinema por alguns anos. A ideia inicial era que ambos dividissem a direção do projeto, mas Ivory ficou com o roteiro enquanto Guadagnino assumiu o papel de diretor. O lançamento da fita se deu 10 anos depois da obra literária, com os atores Timotheé Chalamet e Armie Hammer.
A trama é basicamente a de um coming of age, tendo como base um romance burguês assumido e desprovido de grandes intenções em escalas sociais. “Em algum lugar ao norte da Itália dos anos 80, o galã Oliver (Hammer) chega à casa de férias do jovem Elio (Chalamet), que passa por uma fase autodescoberta”. É uma história simples, mas comprometida desde seu primeiro instante com o desenvolvimento de seu pequeno núcleo de personagens.
Guadagnino, entre banhos de piscina, música e literatura, cria uma tensão sexual digna de hormônios adolescentes. As estátuas de mármore, que surgem logo nos créditos iniciais, refletem a importância da estética e Oliver personifica a figura masculina perfeita. Alto, magro, voz imponente e dono de uma arrogância na medida certa, o galã americano tem cada movimento estudado por Elio com desejo e curiosidade. Mas é o jovem rapaz de Chalamet quem atrai os olhares da audiência.
Elio sabe mais sobre livros, música e Bach do que sobre si mesmo. Membro de uma família que celebra tradições judaicas e cristãs e fala fluentemente inglês, francês, italiano e alemão, o garoto tem liberdade total para desbravar sua puberdade. Não cabem rótulos nas relações do menino e a cinematografia do tailandês Sayombhu Mukdeeprom capta a vida na casa multicultural de seus pais de mente aberta com a leveza de uma pintura impressionista. As paisagens bonitas daquela pequena cidade transbordam a rotina simples, despreocupada e tediosa do universo no qual as personagens transitam.
Timotheé Chalamet se entrega. Aprendeu novas línguas e instrumentos para o papel e suas ações transformam o não-dito das intenções de Elio em mensagens claras. É como se o ator personificasse os pensamentos narrados em primeira pessoa no livro de Aciman. Michael Stuhlbarg, que interpreta o pai de Elio, um acadêmico especializado em cultura greco-romana, é delicado, solícito e cativante. Ambos compartilham a cena mais impactante do filme e aquela que melhor o resume: um encontro delicado entre atuações precisas e diálogos inteligentes.
Guadagnino, que já co-dirigiu o documentário Bertolucci on Bertolucci (2013), não esconde as influências do veterano italiano em suas decisões. A temática homossexual remete também ao clássico Maurice, dirigido por Ivory em 1987, e as canções de Sufjan Stevens são trunfos que o diretor sabe utilizar em momentos marcantes.
Com um desfecho que difere da obra original, Me Chame Pelo Seu Nome sabe criar em cima de sua base, sendo um daqueles poucos casos que excedem à regra. Aqui, o filme é melhor que o livro, mas consumir os dois torna ambas as experiências mais agradáveis.
E, seja como for, o pêssego se encontra nos dois.
Nota: 5/5

